quarta-feira, 6 de novembro de 2013

5º Fórum Nacional de Ensino a Distância no Judiciário


Amigos,

O avanço da tecnologia  - não é novidade para ninguém - está transformando o mundo; mais do que isso, torna-o diverso do que conhecemos. Não temos no horizonte a concretude das coisas fixas (ilusão!). O que sempre nos pareceu certo liquefez-se. É possível que estejamos enxergando um horizonte desconhecido. Os papéis se diluem, os átomos se espaçam. Há transposição efetiva de seres, objetos, pessoas, de um lugar para outro, sem a necessidade de carregamento físico, e sem preocupação com horários, dificuldades geográficas (espaço e tempo). Os tempos verbais, que ainda servem na construção de uma frase - pretérito, presente e futuro - ficarão para tais efeitos, definitivamente encerrados no passado. Tudo é presente!

A possibilidade, por exemplo, de eventos holográficos/presenciais é uma realidade. Não se trata de ficção científica, mas de ciência aplicada.

A video conferência é algo simples, acessível e barato, assim como a realização de audiência, sem necessidade de deslocamento de pessoas (réu preso); juiz, advogados, testemunhas, virtualmente instalados. (presentes..!)

É um mundo novo e maravilhoso, sob o ponto de vista das possibilidades, do alcance imediato do conhecimento e dos efeitos das nossas ações. Uma virtualidade concreta ou uma concretude virtual. Podemos estudar, pesquisando nos livros mais raros, nesta biblioteca do mundo virtual, e ouvir palestras e assistir aulas dos grandes mestres, sem sairmos das nossas mesas.

É um mundo frenético, simbiótico, rico, inimaginável, lúdico, aberto, democrático, e porque não dizer, assustador!  Assustador pela nossa incapacidade e ignorância de o enfrentar. Nossos filhos, sobrinhos e netos nos impedirão de fugir. As crianças já nascem preparadas. A estrutura de seus cérebros é diversa da nossa. Existem neurônios, sinapses, conexões nervosas que as capacitam para esta vida ( a natureza é sábia, adapta o ser humano, desde a concepção, ao meio ambiente). Sorte grande! Tais crianças não necessitam de cursos "on line" ou presenciais para entender o mínimo desses mecanismos modernos de comunicação.

De qualquer modo, transcrevemos nesta página o excelente artigo/descrição que fez o analista judiciário Maurício Bobra Arakaki (do Núcleo de Apoio à Implantação Regional do PJe-JT) sobre o que viu e ouviu do "5o. Fórum Nacional de Ensino a Distância no Judicário", que aconteceu em Brasília, nos dias 29 e 30 de outubro do corrente ano. Tal descrição resume com extrema felicidade o evento e as suas possíveis repercussões:

O evento promovido pelo Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Servidores do Poder Judiciário (CEAJud) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ocorreu nos dias 28, 29 e 30 de outubro de 2013 nas dependências do Tribunal Superior do Trabalho (TST) em Brasília.
O primeiro dia, dedicado a oficinas de ferramentas de EaD, foi destinado a um público bastante limitado para o qual não conseguimos inscrição. Por outro lado, no Fórum em si, houve comparecimento à ministração de cada um dos palestrantes. O texto elaborado logo abaixo é um apanhado daquilo que vimos e ouvimos durante proveitosos dois dias deste encontro.
Direcionado a uma plateia de mais de 400 ouvintes – magistrados e servidores, dos mais variados tribunais do país e contando com a participação de Ministério Público e Advocacia Geral da União – desde o início ficou evidente o caráter de economicidade trazido pelo modelo de EaD quando comparado aos moldes tradicionais de ensino (tipicamente presencial), haja vista que os custos envolvidos no EaD representam uma fração centesimal do ensino tradicional. Isso por uma série de fatores, dentre as quais podemos relacionar: a disponibilização de conteúdo com qualidade e ubiquidade, o acompanhamento assíncrono das aulas, a possibilidade de oferta a públicos interno e externo, a alta escalabilidade do modelo, entre outros.
Outro aspecto que mereceu bastante destaque no evento foi o de compartilhamento de trabalhos em modo colaborativo pelas diversas escolas de governo, o que, sem dúvida é outra forma de reduzir despesas e aproveitar repositório já existente sobre determinado assunto.
Com isso, nas palavras do Prof. Dr. Stavros: “desnecessário reinventar a roda trinta vezes” - considerando o refazimento do mesmo curso, sobre mesmo conteúdo, por escolas diferentes.
Da análise das atuais escolas que temos nos tribunais, dentre as quais destacamos o trabalho desenvolvido no âmbito do TRT2, verificamos que é necessário criar no seio institucional a cultura corporativa de busca pela constante capacitação. Pouco adiantará a oferta de cursos se o nosso público não passar a encarar a aquisição de novos conhecimentos como processo gradual de valorização do indivíduo dentro do quadro funcional, seja este servidor ou magistrado.
O EaD, neste sentido, possibilita à pessoa aprender no seu próprio ritmo e enfatizando um conjunto de habilidades que ela “lapidará” com o atendimento aos cursos. Pode ser encarado como uma política institucional de aperfeiçoamento da pessoa humana e não apenas de mão de obra, pois não apenas valoriza o educando, traz motivação, estimula a novos desafios e amplia as relações interpessoais entre pares, tutores e professores da matéria.
Muito também se fala hoje em dia sobre o mapeamento de competências (no modelo de gestão por competências e gestão do conhecimento), porém é necessário atentarmos que precisamos também identificar não só aquelas existentes e evidentes, mas quais competências estão praticamente a ponto de aflorarem no ambiente institucional – e não raro a “faísca” faltante carece do “empurrãozinho” que a EaD proporciona.
Também não seria ousadia falar que é viável ao TRT2 traçar um planejamento estratégico específico em termos de capacitação de seus magistrados e servidores a fim de proporcionar não só a reconhecida excelência na prestação jurisdicional (como laureada recentemente nos indicadores do CNJ), mas também para proporcionar na outra ponta desta relação, o desempenho com qualidade de vida na atividade judiciária. Em outras palavras afirmar que, com a permanente capacitação, podemos trabalhar ainda melhor, tão somente desenvolvendo determinadas habilidades para bom proveito do corpo institucional.
No Fórum também foi mencionada a necessária atenção que há de ser dada aos conceitos e estudos da neurociência e neurolinguística para estruturação de conteúdos e cursos, pois é fundamental entendermos como o cérebro (e a mente humana, em especial) reage a estímulos e se comporta sob situações de stress. Conhecer como funciona esta misteriosa e extraordinária máquina passa a ser objeto de estudo e interesse não só de médicos e especialistas da área das ciências biológicas, mas de todos os que se debruçam sobre o tema: educação, nos seus mais variados níveis.
Também por influência dos conceitos explorados no Fórum podemos perceber que existe um “plasma” que une a raça humana, maior do que a própria Internet, pois usamos todas as tecnologias para este fim: o universo digital da web, telefonia, SMS, etc. A verdadeira consolidação de uma sociedade em rede. Debaixo deste cenário vários experimentos em EaD vem sendo feitos, e sem dúvidas os mais exitosos aproveitam a largura de banda proporcionada pela Internet – com a utilização de amplos e diversos recursos multimídia e de realidade ampliada (na qual é possível colocar o participante dentro da ação, não apenas como mero espectador).
O conceito de sociedade em rede é muito maior do que das redes sociais que temos hoje, cujos maiores ícones seriam o Facebook e o Twitter. O termo “network marketing” surgiu em algum lugar no fim dos anos 80, coincidindo com o fim dos ternos com ombreiras, e estimulava o profissional do mundo corporativo a ampliar seus contatos para possibilitar vantajosas parcerias. Nos anos 90 – com o advento da Internet – a tendência apenas conheceu forte aceleração. Sendo que no limiar deste século aproveitamos de uma “interface” prática e cômoda para isso: nossa vida, nossos interesses e nossos contatos emoldurados em faixas azul royal do Facebook. Rede social, ou melhor dizendo: mídias sociais não são apenas mero modismo, mas eficiente meio de comunicação. Hoje se encara com a mesma seriedade que se dá à televisão, rádio, jornais e revistas. Companhias, corporações e governos preocupam-se com o que circula nessas mídias, ou plataformas sociais, naquilo que envolve seus nomes e todo aparato de marketing é direcionado para estas páginas – ignorar o impacto das mídias sociais nos dias atuais é fechar os olhos para não enxergar o óbvio.
Com ênfase a essa nova dinâmica de rede de relacionamentos nos tempos modernos, também denota-se que mesmo o usuário mediano de tecnologia, há tempos deixou de ser mero receptor de informação e passou a ser participante ativo no processo, em maior ou menor escala. Já se dispõe nos dias de hoje uma infinidade de serviços não só de hospedagem de páginas, mas de criação de blogs, fóruns de debates, pesquisas em tempo real (polls) que transformam a nossa experiência com o mundo cibernético em uma “ida ao supermercado” para produzir no conforto de casa, a receita que estou me propondo a fazer.
Esta produção caseira em termos de EaD pode também ser muito proveitosa, no sentido em que o “blogueiro” de hoje (sobre determinado assunto) pode ser o produtor de conteúdo (conteudista) para um futuro curso oferecido em nível institucional. O que vemos aqui então é a síntese da construção do conhecimento por pares, utilizando conceitos do conectivismo, construcionista. Qual instituição não valorizaria esta iniciativa?
Por outro lado, e sem que isto soe como um contrassenso, é necessário compreender que o conhecimento em rede pode se apresentar de natureza não consensual – ou seja, nem sempre os que se debruçam sobre o tema terão voz ativa para propor outras soluções ou inventar novos procedimentos. O conhecimento em rede “não consensual” é de fundamental importância para a definição de processos dentro de um determinado órgão ou empresa, com o intuito de buscar uma certa padronização e assim facilitar o entendimento especialmente por parte dos clientes externos. Também dentro deste tópico é importante frisar que, para fins de uniformização, o tempo de resposta não há de ser necessariamente exíguo, pode e deve se tomar maior tempo na elaboração de boas e eficientes soluções.
Propôs o Fórum também a criação de um mercado interno de conhecimento e ideias, como forma de as instituições focarem suas atenções a tais iniciativas que, não raro acabam sendo ignoradas, desconhecidas ou colocadas à margem do processo de definição de rumos e tomadas de decisão.
Ainda sobre o EaD e o contexto institucional foram apresentados conceitos sobre um cenário corriqueiro: o dos nativos digitais e dos imigrantes digitais, isso devido aos silos de gerações (gaps) existentes, sejam em empresas ou tribunais.
Como a contratação é feita com base em concurso público, é comum termos diferentes “gaps” (intervalos) entre gerações de um mesmo órgão público, isso nos dias atuais é fortemente notado quando falamos em termos de tecnologia. Os nativos digitais são aqueles ingressos a menos de 10 anos no serviço público e que não encontram grandes dificuldades em desempenhar tarefas cotidianas, para os imigrantes digitais (na maioria, 10 anos ou mais) enviar um e-mail pode ser uma tarefa desgastante. Como lidar com essas diferenças?
O desafio inicia-se logo com a utilização da própria EaD, pois o imigrante digital – em regra – não se sente muito à vontade em assistir aulas em vídeo, ler conteúdo em PDF, responder questionários online; algo que o nativo digital já conseguiu absorver essa mudança de paradigma didático – e se mostra mais propenso a aceitar essa forma de aprendizagem.
Talvez algo que possa alavancar este processo de “colocar todos num mesmo patamar de cidadania digital” seria, inicialmente ou em havendo necessidade, o oferecimento de cursos em modelo presencial ou semipresencial, para o fim de familiarização com os moldes do ensino mediado por mídias eletrônicas – e ao final dar certificação a estes funcionários para deixá-los aptos a futura utilização somente em EaD.
Para planejar esse repertório em EaD é necessário algum conhecimento em tecnopedagogia, que além de prever a desagregação do papel clássico do professor também prevê a utilização de novos atores no processo de criação, formatação e disponibilização de todo esse conteúdo. A título de exemplo: produzir de modo sustentável é o papel do arquiteto pedagógico, além disso se faz a adequação do conteúdo aos formatos: televisão, smartfone, tablets, PC e notebook; o desenhista instrucional e o web designer atuam em parceria como unha e carne, e por último destacamos a desestruturação tradicional da figura do professor.
Importante frisar que atualmente, dentro da realidade do EaD, o professor apresenta-se fragmentado em relação à sua imagem tradicional. Temos o papel do conteudista, que produz o conteúdo didático, com atividades e exercícios. O tutor é aquele que faz a mediação das aulas e aprendizagem. O desenhista instrucional (o primeiro aluno de qualquer curso), que é responsável pela adequação do conteúdo à mídia selecionada – além disso, o foco é dado no aprendizado do público alvo. O web designer que realiza a preparação do conteúdo multimídia e mormente visual – o projeto deve obrigatoriamente ser agradável e atraente em termos visuais, para motivar a participação dos alunos mais dispersos. Pode-se inclusive propor jogos educativos, e aulas interativas oferecidas por streaming audiovisual com ajuda da Internet. Em outras palavras, o professor clássico cede lugar a uma série de outros atores ou dependerá de um profissional amplamente versátil, passeando frequentemente por diferentes metodologias e técnicas.
Também no Fórum foram apresentadas possibilidades de ofertas de tais cursos, podendo variar das modalidades completamente gratuitas, chegando até ao modelo premium pago. Sobre as formas de apresentação, esta pode ser dada de forma massificada (MOOC – massive open online courses) ou até mesmo individualizada.
Por falar nos MOOC's citados acima, foi apresentado o conceito de REA (recursos educacionais abertos) que se trata de um esforço de uma comunidade global de se criar bens educacionais pertencentes à humanidade, além da exortação pela utilização de conteúdo produzido debaixo de licença creative-commons (que são licenças de distribuição com preservação de direitos autorais a custo zero para fins não comerciais).
Houve também a apresentação de muitas ferramentas disponíveis online para formulação de conteúdo, utilização como recursos adicionais ao aprendizado, bem como estudos de casos com soluções encontradas por outros regionais, dentre elas algumas usando inclusive o EaD como ferramenta quase “correicional” para auxílio e orientação de unidades judiciárias dependentes de uma mãozinha para o bom atendimento à população.
Em resumo, o Fórum cumpriu muito bem seus objetivos ao apresentar vários painéis sobre a matéria EaD e contou com a participação de professores de renome neste cenário.
Serviu de bússola para identificarmos em termos institucionais o caminho pelo qual o TRT2 pode trilhar e tornar-se referência ao ofertar bons cursos, primeiramente ao nosso público interno e num segundo momento: externo. Com isso será possível atingirmos o status de Universidade Corporativa – o que não é um sonho tão distante se houver planejamento específico neste sentido.
Porém antes disso, talvez o maior desafio que se imponha ao TRT2 é justamente o mesmo enfrentado pela maioria das instituições, que é justamente o de como criar uma cultura corporativa de permanente aperfeiçoamento profissional (e por que não dizer: pessoal). Ficou claríssima a ideia de que a única coisa na natureza que aumenta quando dividida é o conhecimento: o fator colaborativo mostra-se como ingrediente decisivo para o crescimento exponencial da tão almejada excelência, seja na iniciativa privada ou no poder público.
O presente apanhado não pretende ser um documento definitivo sobre o assunto, mas creio que cumpre a finalidade de trazer ao caríssimo Dr. Carlos Husek – Desembargador do TRT2 e Diretor do Ejud2 – as impressões pessoais deste servidor por ocasião de sua participação no evento.
Agradeço o crédito institucional confiado a mim nesta oportunidade e coloco-me à disposição no que for necessário no tocante a projetos oriundos deste desafio ou de outros de interesse da honrada Escola Judicial ou do Egrégio TRT2.


Carlos Roberto Husek
Diretor da EJUD2