sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Desembargadora Maria Inês Moura Santos


Amigos,
 
Não há mais o que dizer, numa seção, esta, que não foi criada para notícias ruins, mas o costume dos últimos tempos nos faz duvidar sobre o que é a vida ou a morte. Estar vivo é olhar, sentir, falar, gesticular e apalpar a terra, e corporificar os passos? Morrer é simplesmente evadir-se, desaparecer, transformar-se em um nada diante da vida que se vislumbra sob os olhos do vivo? Temo que estejamos cegos para a realidade ou a tomamos pelo que verdadeiramente não é. A vida, dizem os crentes, é muito mais ampla. Os não crentes não dizem nada. Perderam a capacidade de dizer, diante da sufocante paisagem que se desenrola às suas frentes. Os crentes sofrem de ilusão e os materialistas de desilusão. Ambos desfocam a vida e, míopes e astigmáticos, enxergam por lentes que deturpam, de imediato, os contornos da existência. A matéria se estende além das fronteiras do visível e o que não conseguimos explicar nos abate e nos manda para as tendas do milagre e da exortação. O que é da essência do invisível, está também em nosso corpo, materialmente fincado, além das células e dos átomos e nem nos preocupa e sequer nos abate, porque nossa ignorância não se dá ao luxo de lhe decifrar a existência. O que conhecemos? Nossos limites corporais, na fímbria da nossa epiderme e, a partir daí, o que nos revelam os sentidos quanto ao mundo exterior. Conclusão: não conhecemos absolutamente nada.
 
A desembargadora Maria Inês Moura Santos Alves da Cunha morreu. Melhor seria perguntar o que dela morreu: células, átomos, o fluxo de uma circulação sanguínea? Mas isso é tudo?
 
Seus atos, suas manias, suas idiossincrasias, suas virtudes, seus eventuais defeitos, seus olhares amigos, suas falas duras, seus gestos de enfado, seus desejos, suas conquistas, seus fracassos, suas histórias, seus conselhos aos amigos mais próximos, seus desamparos e esperanças...morreram? Sinto que, como pedras que atiramos nas águas para criar círculos, tais fatos e provocações que se agitaram ao longo de uma vida continuam a formar espirais, quase indefinidamente. Ela (Maria Inês) está aqui, aí, ali, acolá, na essência que foi seu apanágio, na materialidade que lhe era e nos é desconhecida, na espiritualidade que alimentava os fios (neurônios, sinapses, veias) e que se consumiu em parte com a doença. Esta, a doença, é apenas um consumo da matéria visível, por seu tempo, mas não representa a morte, e não poderia prestar-se a tal papel, porque a morte não tem existência concreta. As pessoas que de algum modo amamos (falo para os que privaram da sua efetiva amizade ou de seu efetivo amor) e aquelas com que convivemos não morrem, porque não desaparecem em essência.
 
Não sei se é triste dizer, se é verdadeiro, ou se não passam de meras palavras, mas quando o corpo se transforma em pó ficam concretamente as histórias e os valores, as verdades, os grandes princípios e filosofias, as regras que seguimos vida afora, que recebemos e transmitimos. Tudo, histórias...o resto, o resto, é o corpo que veneramos, mero veículo de aperfeiçoamento da capacidade que temos de relacionamento, aproximação, amor, compreensão, condescendência, amizade, realização dos desejos, busca da felicidade.
 
Assim, prestamos nossa homenagem, não àquela que se foi, mas a que fica após uma vida de construção da própria individualidade.
 
Maria Inês Moura Santos Alves da Cunha, desembargadora, professora, diretora da Escola Judicial, que alimentou gerações de pretendentes ao Poder Judiciário e que se envolveu com a criatividade e com a crítica, viva ainda e sempre, entre aqueles que fazem parte dessa história.
 
Carlos Roberto Husek
   

Um comentário:

  1. Magda Aparecida Kersul de Brito5 de setembro de 2014 14:36

    Viva aqui por suas ações e pelo amor e viva na dimensão espiriritual que a acolheu e embala seus sonhos...
    Pois continua a sonhar com melhores tempos... homens mais felizes e amorosos....

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